É fácil fazer comida simples!
A frugalidade gourmand é diferente. Apesar da admiração por uma complexidade inerente às reduções e intercâmbios de sabores, aromas e texturas dos acepipes contemporâneos, a genialidade surge na simplicidade perceptível, muito fala-se da originalidade dos contrastes, mas até onde ser original requer absoluta irreverência e quebra de paradigmas?
O problema fundamental é a dificuldade em ser simples! Contraditório? Não exatamente! Ser simples requer critérios muito bem elaborados e uma ativa perseguição pela qualidade, ou seja, é sinônimo de boa cozinha! O que não deve ser confundido com cozinha fácil, aquela que em minutos transforma restos de pães e tomates em uma bruscheta fantástica sem qualquer elucubração.
Há um paradigma fundamental na cozinha mundial, a progressão convencional das teorias e do próprio entendimento do alimento reduziu antigos clássicos como beef bourguinon, coq au vin ou nossa buchada à posição de culinária “menos relevante”, enquanto a “moda” sacia-se na gastronomia molecular, mas esse é um paradigma amparado na própria etimologia do termo “culinária”, afinal na acepcão da palavra: é o estudo das técnicas de manipulação do alimento “até modificar seu sabor, consistência, aparência e composição química”.
“A man who was fond of wine was offered some grapes at dessert after dinner. ‘Much obliged,’ said he, pushing the plate aside, ‘I am not accustomed to take my wine in pills.’”
2010 pode ser o ano da “confort food” o moderninho “almoço executivo” torna-se uma necessidade, precisa ser rápido, mas a exigência é maior, precisa ser nutritivo, mas bem executado. Afinal quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de perder 2horas em um almoço fenomenal de espumas sabor foie grás? Grandes chefs perceberam que fazer comida confortável na hora do almoço é uma boa idéia e as pessoas querem comer bem, só não podem perder todo o começo da tarde para isso!
O almoço executivo padrão é o “remake” do saudoso PF (Prato Feito) dos trabalhadores de outrora, revestidos de um caráter gastronômico interessante, devem ser rápidos na execução e genuinamente cativantes ou seja simples! Este tipo de cozinha é uma resposta estritamente mercadológica. Por isso muito me impressiona a qualidade que algumas casas atribuíram a sua execução, um longo caminho desde o velho bife acebolado!
O Lê Díner foi escolhido como caso típico, um restaurante já consagrado por sua conteporaneidade, executando peripécias gastronômicas, resolveu partir para a agilidade do almoço, as pessoas modernas talvez disponham de 30minutos à 1hora para almoçarem e buscam qualidade nesse tempo! Os francos adeptos da slow food se descabelam com o que representa esse tempo de execução e o Lê Díner é slow por excelência, um de seus salões chama-se espaço slow food (para terem uma ideia)!
Cabe uma pequena nota quanto ao slow food, o problema não é a velocidade de execução do prato, como muitos pensam, mas na padronização dos alimentos de maneira a inibir a cultura gastronomica regional, slow food é, portanto, a aplicação da ecogastronomia. Agora tentar executar um prato rápido sem alguma padronização é um desafio!
Sendo assim, 3 escolhas de carnes e 3 acompanhamentos formam as “opções” do almoço do Lê Díner, acredito que a chef Thais tenha buscado um pé nos clássicos pratos feitos na escolha das guarnições, o arroz e feijão são a base formal do almoço brasileiro, feijão muito bem cozido em caldo grosso e sem interdições regionalistas, afinal nenhum feijão é igual ao de casa com aquele ingrediente diferente (não, não é amor que tempera os melhores feijões), melhor não brigar com a mãe de ninguém e deixar o prato só no sal. Gostei.
Impossível ser mais simples que isso! Muito me agradou o efeito, o problema foi conseguir misturar um fillet de pescada amarela maravilhoso na manteiga de ervas com um feijão, farinha de ovos e arroz… Acho que peixe poderia ser acompanhado de algo diferente… Mas para a carne e para o frango acho que seria perfeito.