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Bella Italia.

Sunday, March 14th, 2010

Trattoria, Osteria ou Ristorante? A Bella Italia é um pouco de cada, de ambiente simples e casual com um cardápio simples, mas bem composto. Atendimento razoável e comida a preços acessíveis, fica difícil enquadrar a casa em qualquer dos tipos básicos de estabelecimentos gourmands italianos. Na falta de uma clara e premente definição, ouso chamar de uma trattoria e pizzeria, por hoje em foco a trattoria.

Historicamente o termo trattoria é “irmão” do trateur francês, entretanto o conceito familiar e informal do ambiente italiano indicam a presença de uma culinária fortemente clássica, centrada em uma ou duas especialidades da “mama”. No Brasil a expectativa fundamental dada às trattorias está na massa, e foi por ela que nos aventuramos pelo Bella Italia.

Conceitualmente a culinária italiana é profundamente regionalizada, enquanto o Cantina di Napoli apresentava uma cozinha Neapolitana contemporânea repleta de referências da cidade da pizza, encontramos no Bella Italia uma cozinha de ampla dominação Siciliana e de Campania, massas com frutos do mar dominando profundamente o cardápio, mas sem esquecer cremes trufados de Umbria, tomates de Campania e referências de molhos da terra onde Dionísio deu o vinho aos seres humanos, a Sicilia.

É difícil confrontar um italiano quanto as vertentes de seu estilo gastronômico, quase sempre as mesmas receitas são produzidas em diferentes partes com leves diferenças, porém cada um jurando de pés juntos a primazia de sua arte culinária, então para comentar regionalmente as nuances da teoria gastronômica italiana é quase comprar briga com todos os italianos.

Assim, melhor traçar uma macrovisão dos conceitos envolvidos na produção da comida italiana, em especial do Bella Italia. A primeira regra de ouro é a qualidade dos ingredientes, afinal está descrito numa das primeiras referências gastronômicas da história escrita: o uso de “ingredientes da época e com a melhor qualidade” são fundamentais ao banquete. E logo de cara a primeira dificuldade, ingredientes de qualidade não precisam ser cremes  trufados de umbria, massas frescas da Campania e muito menos sardella da Sicilia… O erro mais antipático que eu consigo pensar nestes restaurantes é menosprezar o frescor e o fácil acesso ao local onde se estabelece, nada contra trazer os ingredientes (quase sempre em conserva) para abrilhantar detalhes, mas é um pecado fazê-lo somente por fazer… Afinal um creme trufado de umbria custa algumas centenas de reais e somente estes conseguem elevar a percepção sensorial do prato, mas daí trazer um semelhante de poucas dezenas de reais e diluí-lo entre outros ingredientes duvidosos produz coisas profundamente infelizes… Melhor que fizesse uma releitura com ingredientes nacionais.

Pecado número 2, a boa massa é um fator de gosto tão pessoal quanto o vinho, quantidades diferentes de sêmolas e trigos produzem qualidades diferentes de massas, na minha humilde opnião existem duas maneiras de se satisfazer com uma boa massa, primeiro usar sêmola quase sempre (é mais díficil errar na sêmola que nas massas mistas) e segundo é acertar o ponto perfeito de cocção. Não é concebível a um profissional gastrônomo que não entenda do ponto de suas massas, especialmente em casas que utilizam SEMPRE o mesmo fornecedor e  não se dedicam a preparação caseira de suas pastas. Quando a massa é feita manualmente entendo que diferentes condições ambientais, variações mínimas na qualidade dos trigos e tudo mais influem na produção e portanto exigem mais cuidados na obtenção do ponto exato, mas as massas industriais são de uma uniformidade razoável e o ponto é prontamente estimável sem sequer provar da textura. Dito isso não é admissível uma massa chegar à mesa em qualquer outra textura que não seja o mais perfeito al dente.

Terceiro protesto, ambiente é tudo num restaurante, não pagamos somente pela comida, embora ela seja o fator preponderante e possa até mesmo compensar todo o resto, entretanto é minimamente desejável que o ambiente seja limpo e agradável, coisas que eu sempre espero, não importa o buteco. Acontece que existem níveis de relevância, um restaurante beira de estrada com noções de higiene é fantástico, a mesma higiene numa capital é o mínimo!

Assim, vamos ao prato, tive o desprazer de escolher um fusilli a la funghi porcini, péssimo. Tudo errado, ponto da massa, temperatura do prato a mesa, forma de servir, ingredientes… Tudo fraco mesmo. Provei outros quitutes e parece-me que alguns dos erros procedem para tudo, ingredientes duvidosos e temperatura dos pratos.

Vou me ater a esses dois critérios, os ingredientes parecem suficientemente frescos, mas não tão novos assim, não sei se a acomodação foi ruim ou se misturam diferentes validades. E a temperatura desejável para um prato é quente, mas não exageradamente, comida gelada é quase uma afronta ao cliente, então muita gente prefere apelar para o extremismo e trazem a comida para “terminar de cozinhar” na frente do cliente, existem ocasiões onde isso pode ser feito, mas não quando você traz um prato montado da cozinha…

Enfim, nada de bom a declarar da casa. Infelizmente tinha mais expectativas, ainda mantenho alguma esperança quanto à pizza, voltarei somente por ela.

La France

Sunday, February 21st, 2010

Dizem as más línguas aqui existir o melhor Belle Meunière, muito bom realmente.

A visita ficou um pouco falha (minha falha), porque todos os pratos foram variações do peixe (tradicionalmente o carro chefe de uma casa que nasce na praia da Caponga e tem sua “filial” em Fortaleza), acabei sem provar outras coisas que mereciam ser provadas como autênticos franceses, do Magret de Pato ao fillet au roquefort, fica para algumas visitas nos próximos dias, então eu prometo que volto a comentar aqui.

Atendimento não foi ruim, mas a simpatia do dono é contagiante. Já vi motoristas de ônibus melhor aparentados, mas faz parte, como disseram à mesa: “importante é a comida ser boa”… Não concordo, mas entendo o espírito da coisa.

Banheiro é limpinho. A arquitetura do lugar é no mínimo desajeitada, mas interessante e até confortável. O fato de comermos em bandejas de porcelana que por lá chamam de pratos é inusitado, eu gosto do espaço para brincar com comida.

A comida é que não atendeu expectativas, tanto que me disseram, tanto que me recomendaram… O belle meunière é genuinamente bem feito, peixe fresquíssimo, manteiga suficiente e bem temperada, a questão é qual receita é a correta, como nunca tive o privilégio de provar o clássico Solle Meunière e haja visto que existem tantas variações para o molho meunière quanto existem franceses na França. Supondo que a receita da casa é a correta, então eu prefiro versões do Coco Bambu frutos do mar e do Vojnilo.

O peixe na manteiga branca foi decepcionante, beurre blanc é simplesmente manteiga aquecida dissolvida com vinagre, vinho e cebolas, batida a frio com mais manteiga para obter a aparência esbranquiçada, em contra ponto a beurre noir que leva unicamente manteiga aquecida até o ponto de caramelização das partículas de leite na manteiga. Um bom beurre blanc tem uma execução semelhante ao bearnaise, o problema é conseguir administrar o ponto da manteiga fria com a derretida até que as partículas de leite da manteiga formem uma emulsão esbranquiçada característica, bata muito e a gordura separa-se do leite, bata pouco e a consistência ficará comprometida.

O problema parece ter sido o segundo, apesar de aparentemente atingir um estado coerente do que se espera visualmente, o leite não havia emulsificado totalmente, resultando em um sabor agudo de creme de leite, ou talvez tenham esquecido do vinagre e vinho que permitem uma emulsificação mais agradável.

O terceiro prato trata-se das brochettes de peixe branco com frutas, outra vez uma pena, o peixe estava salgado, e aparentemente as frutas se desprenderam do espeto durante o cozimento, resultando na falha da mistura de sabores, o abacaxi é interessante assado com peixes pois produz a citricidade comumente relacionada ao peixe, mas para tanto precisaria estar em contato com o peixe… A manga adicionaria o doce semelhante aos mango chutneys, entretanto a manga madura aquecida não fica no espeto, obviamente, e ela precisa ser madura para contribuir com algum sabor, o molho de curry realmente estava bom, não muito carregado no curry, nem fraco demais, um ponto interessante ao se misturar curry com mangas e abacaxis. Uma pena a execução ter falhado.

Algumas notas, o arroz feito somente com alho é muito bom, e as batatinhas francesas que acompanham TODOS os pratos são dignas. Apesar que eu nunca me dou bem com tais frituras.

Enfim, espero retornar a casa para poder visitar outras técnicas e ingredientes para realmente avaliar melhor, mas por esta visita fica a completa desilusão quanto às expectativas.

Lê díner.

Tuesday, February 9th, 2010

É fácil fazer comida simples!

A frugalidade gourmand é diferente. Apesar da admiração por uma complexidade  inerente às reduções e intercâmbios de sabores, aromas e texturas dos acepipes contemporâneos, a genialidade surge na simplicidade perceptível, muito fala-se da originalidade dos contrastes, mas até onde ser original requer absoluta irreverência e quebra de paradigmas?

O problema fundamental é a dificuldade em ser simples! Contraditório? Não exatamente! Ser simples requer critérios muito bem elaborados e uma ativa perseguição pela qualidade, ou seja, é sinônimo de boa cozinha! O que não deve ser confundido com cozinha fácil, aquela que em minutos transforma restos de pães e tomates em uma bruscheta fantástica sem qualquer elucubração.

Há um paradigma fundamental na cozinha mundial, a progressão convencional das teorias e do próprio entendimento do alimento reduziu antigos clássicos como beef bourguinon, coq au vin ou nossa buchada à posição de culinária “menos relevante”, enquanto a “moda” sacia-se na gastronomia molecular, mas esse é um paradigma amparado na própria etimologia do termo “culinária”, afinal na acepcão da palavra: é o estudo das técnicas de manipulação do alimento “até modificar seu sabor, consistência, aparência e composição química”.

“A man who was fond of wine was offered some grapes at dessert after dinner. ‘Much obliged,’ said he, pushing the plate aside, ‘I am not accustomed to take my wine in pills.’”

2010 pode ser o ano da “confort food” o moderninho “almoço executivo” torna-se uma necessidade, precisa ser rápido, mas a exigência é maior, precisa ser nutritivo, mas bem executado. Afinal quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de perder 2horas em um almoço fenomenal de espumas sabor foie grás? Grandes chefs perceberam que fazer comida confortável na hora do almoço é uma boa idéia e as pessoas querem comer bem, só não podem perder todo o começo da tarde para isso!

O almoço executivo padrão é o “remake” do saudoso PF (Prato Feito) dos trabalhadores de outrora, revestidos de um caráter gastronômico interessante, devem ser rápidos na execução e genuinamente cativantes ou seja simples! Este tipo de cozinha é uma resposta estritamente mercadológica. Por isso muito me impressiona a qualidade que algumas casas atribuíram a sua execução, um longo caminho desde o velho bife acebolado!

Lê Díner foi escolhido como caso típico, um restaurante já consagrado por sua conteporaneidade, executando peripécias gastronômicas, resolveu partir para a agilidade do almoço, as pessoas modernas talvez disponham de 30minutos à 1hora para almoçarem e buscam qualidade nesse tempo! Os francos adeptos da slow food se descabelam com o que representa esse tempo de execução e o Lê Díner é slow por excelência, um de seus salões chama-se espaço slow food (para terem uma ideia)!

Cabe uma pequena nota quanto ao slow food, o problema não é a velocidade de execução do prato, como muitos pensam, mas na padronização dos alimentos de maneira a inibir a cultura gastronomica regional, slow food é, portanto, a aplicação da ecogastronomia. Agora tentar executar um prato rápido sem alguma padronização é um desafio!

Sendo assim, 3 escolhas de carnes e 3 acompanhamentos formam as “opções” do almoço do Lê Díner, acredito que a chef Thais tenha buscado um pé nos clássicos pratos feitos na escolha das guarnições, o arroz e feijão são a base formal do almoço brasileiro, feijão muito bem cozido em caldo grosso e sem interdições regionalistas, afinal nenhum feijão é igual ao de casa com aquele ingrediente diferente (não, não é amor que tempera os melhores feijões), melhor não brigar com a mãe de ninguém e deixar o prato só no sal. Gostei.

Impossível ser mais simples que isso! Muito me agradou o efeito, o problema foi conseguir misturar um fillet de pescada amarela maravilhoso na manteiga de ervas com um feijão, farinha de ovos e arroz… Acho que peixe poderia ser acompanhado de algo diferente… Mas para a carne e para o frango acho que seria perfeito.

Mercado: Sabores do mundo

Saturday, January 23rd, 2010

Parece que andei pulando algumas visitas, faltam comentários do Lê Dìner e Riory, mas acredito que meus amigos farão estes comentários assim que puderem.

Estou aqui para traçar um comentário (pequeno desta vez) acerca do mercado. Primeiro fato apreciado, o cardápio é MUITO interessante, gosto de ler historinhas, apesar de detestar que me contem pessoalmente… Pode me chamar de autista, mas não tenho interesse em tratativas humanas, sinto-me melhor com o papel.

Outro fato a destacar são os suflês, ofício do chef de cozinha da casa (sua especialidade de formação), entretanto eu fico com os pequenos suflês simples, os servidos como entrada, e não recomendo o prato principal, um suflê maior, pior apresentado e quase indigno de comentários.

Não recomendo os clássicos, prefira as peças mais imaginativas da casa, com toques de regionalidade, carneiro, carne de sol… essas coisas realmente é que fazem valer a pena, para quem quer ser meio esnobe (como eu acabei sendo), melhor procurar outra casa…

Recomendo a mesa redonda, dá um espírito de távola redonda e todos iguais, meio lúdico quase… Ah, a paçoca é tiro certo para gostar! O carpaccio de tilápia é admirável, nunca havia imaginado em tratar peixe de água doce para comer cru… Coisas da vida sem imaginação.

O que mais… Acho que só. Enfim, vale a visita, mas não é o melhor de fortaleza, a revelação do chef pode ficar por algumas misturas interessantes e uns poucos detalhes relevantes da casa, mas não vale o titulo de melhor, do pouco que conheço na cidade existem outros chefs que preparam coisas com melhor características, cada um na sua praia.

Colher de pau

Tuesday, January 12th, 2010

Melhor restaurante regional segundo a revista veja-fortaleza, será mesmo?

A visita à casa começa com uma pequena viagem cultural pelo conceito de regionalidade, o ceará é reconhecido como terra dos peixes e frutos do mar. No colher de pau as raízes estão fincadas no mar, na comida “simples”, não adianta procurar reduções de vinhos, modernismos com cajus e cachaças… O colher de pau é estritamente mundano, fillet com fritas, salada de alface, tomate, cebola e pimentão, peixadas, camarões… Tudo que você encontra ordinariamente espalhado no estado cearense, a diferença é a maneira de fazer as coisas!

O colher de pau envereda por um caminho interessante de regionalismo, não reinventa nada, apenas escolhe bem o que fazer, 18 anos atrás a casa preparava basicamente os mesmos quitutes, coisas simples que o cearense encontra em todo restaurante simples da cidade, da carne de sol na manteiga da terra (ou de garrafa como chamam por aí) à peixada da casa. A diferença de 18 anos é que os ingredientes são melhores hoje, a carne de sol não vem uma semana cheia de nervos e gordura e na outra fresca, macia e suculenta, hoje a casa tem um padrão de qualidade que merece ser zelado.

O gourmand mais requintado torce o nariz na primeira passagem de vistas pelo cardápio, afinal nada se destaca, nada é “novo”! O erro fundamental dos críticos culinários é acreditar que tudo precisa ser reinventado a todo momento para merecer destaque, comer uma carne de sol refogada na chapa com manteiga da terra é ridículo para muitos “críticos” de plantão que preferem um perdiz ao molho de uvas… Mas coloque uma paçoca de farofa de carne de caju e todos se encantam… hipócritas.

Realmente eu tenho dificuldades em aceitar as escolhas da veja-fortaleza, os critérios de escolha são fracos no meu entendimento, mas o colher de pau é um dos acertos, exatamente pelo mesmo motivo que enfraquece todas as demais escolhas, ninguém melhor que um artista local, um jornalista ou um empresário da terra para escolher o que é mais regional, pena que o mesmo não valha para setores onde o requinte suplanta a cozinha.

O que torna o colher de pau o melhor regional é o critério de regionalidade, tal qual o regionalismo literário de José de Alencar e Franklin Távora enchiam de luzes o nordeste brasileiro (e o Ceará), o regionalismo gastronômico, na minha opinião, não deve ser confundido com a redescoberta gastronômica, o regionalismo é histórico, amparado na cultura existente e fundamentado no que é a vida na região de estudo, a redescoberta é a acepção contemporânea dada a história culinarista, diz muito mais respeito à novos usos de ingredientes, técnicas e receitas clássicas.

Por isso que ser regionalista é dual, ou não é que a culinária inventiva de Helena Rizzo (nosso amigo Pinto esteve por lá para conferir) tenha toques de Pará, com farofa de castanhas que acompanham as esferas de feijoada, ou toques de Bahia no bobó de camarão incrementado com shiitake e chocolate, assim como não pode se dizer que o famosissimo D.O.M. não seja repleto de regionalismos? (sendo gastronomia brasileira o próprio sobrenome da casa). O problema é que as pessoas esquecem do que esperar dos restaurantes, o colher de pau foi uma grata lembrança de que gastronomia pode ser simples, sem invenções exageradas, e ainda assim mais do que satisfatória.

Enfim, com exceção de um atendimento fraco (despreparado como são quase todos), a casa é uma das melhores opções para se entender um pouco da culinária do Ceará, do mar ao sertão tem um pedacinho do que ser provado por ali e o melhor, sem necessidade de ser um absurdo gastronômico, basta ser bem feito.