Sabe aqueles momentos em que você segue com a maré? Foi nesse sentimento que cheguei para o almoço executivo na cachaçaria ypióca do shopping, havia terminado de comer um baita sanduíche de mortadela com 300grs do embutido, então serviria mais como acompanhamento aos nobres Saulo, Mariana e Maíra (a.k.a. Suspiroca) que por acaso do destino (nem tanto assim, haja visto que a probabilidade de nos encontrarmos no café dona xícara é razoável) encontrei se reunindo para provarem do almoço executivo antes mencionado.
Surpresa, o cardápio do almoço é o mesmo do a la carte, assinado pela chef marie anne, então nenhuma decepção quanto a originalidade das ideias, obviamente tudo leva cachaça em seu preparo, mas são toques personalíssimos e descaradamente suaves demais para meu gosto. Fiquei no regionalismo que a chef adquiriu em vários anos vividos aqui no Ceará, nossa tilápia na crosta de castanhas levemente salteada na cachaça, na mesa surgiram ainda um groujon ao molho de mostarda e cachaça e dois fillets o funghi e cachaça.
Minha parte primeiro, a tilápia é um peixe único, o hábito alimentar é estritamente vegetariano especialmente um excelente controle para plantas de superfície e algas fibrosas, por sua rápida proliferação e fácil adapatação a condições de água salgada ou doce foi um dos primeiros peixes a serem cultivados pelos aquicultores egípcios mais de 4000 anos atrás. O sabor da carne é variável, o peixe livre costuma ser mais seco e possuí características de sabor que podem ser meio barrentas (característica comum a peixes de água doce herbívoros), já o criado a base de ração é maior, mais suculento e leve.
Bem, o segredo para preparar peixes brancos muito leves como robalos e tilápias é acertar no ponto, cozinhe demais e terminará com peixes secos, que se desmancham em pequenas fibras esbranquiçadas pouco interessantes, cozinhe de menos e terá um sabor forte da carne crua e uma textura que nem todos admiram (poucos na verdade), o ponto ideal produzirá um peixe leve, bastante suculento e que se desmancha na boca.
A cachaça é uma bebida interessante gastronomicamente, mas encontrei poucos bons usos da mesma, use demais e a cana de açúcar predominará e destruirá o sabor de pratos delicados, use de menos e ninguém perceberá a cachaça, mesmo com muita busca e cuidado na identificação dos sabores… É muito mais comum pecar para menos do que para mais, assim sendo a execução da tilápia empanada na crosta de castanha de caju salteada na cachaça acabou sem graça quase nenhuma… O ponto do peixe estava perfeito, a crosta de caju era muito fina e a castanha muito maçerada, logo o peixe se destacava mas o caju nem sequer se fazia presente, como o prato toma raízes na comum truta com amendoas que encontra-se com relativa frequência mundo afora, teria sido uma boa ideia executar as castanhas em lâminas e o peixe grelhado ao invés de salteado, tomaria ainda a cachaça junto com a carne do caju, talvez numa redução ou simplesmente como um acompanhamento… Não sei se vale a pena ir tão longe. Pela simplicidade de execução realmente é um bom prato.
Assim, pela tilápia eu não daria grandes considerações ao almoço excutivo local, os demais pratos sofreram de iguais problemas, usar cachaça requer um pouco mais de estudo, eu nunca consegui acertar nas quantidades nem no tipo de cachaça que melhor se adequa a cada tipo de alimento, mas com um pouco de tempo e pequenas mudanças eu vejo imenso capacidade nos pratos da casa, certamente voltarei pelo lombo suíno com frutas da época!
Vale a pena degustar dos drinks enquanto espera, aí sim parecem ser excelentes! Ou mesmo uma pura 16-anos geladíssima como a que apreciamos, isso pra quem tem paladar forte para misturar o malte com a comida que virá a seguir!
De fim fica a dica de sempre, café na dona xícara para dilatar o estômago um pouquinho funciona como grande pedida pós gastronômica!