Archive for February, 2010

La France

Sunday, February 21st, 2010

Dizem as más línguas aqui existir o melhor Belle Meunière, muito bom realmente.

A visita ficou um pouco falha (minha falha), porque todos os pratos foram variações do peixe (tradicionalmente o carro chefe de uma casa que nasce na praia da Caponga e tem sua “filial” em Fortaleza), acabei sem provar outras coisas que mereciam ser provadas como autênticos franceses, do Magret de Pato ao fillet au roquefort, fica para algumas visitas nos próximos dias, então eu prometo que volto a comentar aqui.

Atendimento não foi ruim, mas a simpatia do dono é contagiante. Já vi motoristas de ônibus melhor aparentados, mas faz parte, como disseram à mesa: “importante é a comida ser boa”… Não concordo, mas entendo o espírito da coisa.

Banheiro é limpinho. A arquitetura do lugar é no mínimo desajeitada, mas interessante e até confortável. O fato de comermos em bandejas de porcelana que por lá chamam de pratos é inusitado, eu gosto do espaço para brincar com comida.

A comida é que não atendeu expectativas, tanto que me disseram, tanto que me recomendaram… O belle meunière é genuinamente bem feito, peixe fresquíssimo, manteiga suficiente e bem temperada, a questão é qual receita é a correta, como nunca tive o privilégio de provar o clássico Solle Meunière e haja visto que existem tantas variações para o molho meunière quanto existem franceses na França. Supondo que a receita da casa é a correta, então eu prefiro versões do Coco Bambu frutos do mar e do Vojnilo.

O peixe na manteiga branca foi decepcionante, beurre blanc é simplesmente manteiga aquecida dissolvida com vinagre, vinho e cebolas, batida a frio com mais manteiga para obter a aparência esbranquiçada, em contra ponto a beurre noir que leva unicamente manteiga aquecida até o ponto de caramelização das partículas de leite na manteiga. Um bom beurre blanc tem uma execução semelhante ao bearnaise, o problema é conseguir administrar o ponto da manteiga fria com a derretida até que as partículas de leite da manteiga formem uma emulsão esbranquiçada característica, bata muito e a gordura separa-se do leite, bata pouco e a consistência ficará comprometida.

O problema parece ter sido o segundo, apesar de aparentemente atingir um estado coerente do que se espera visualmente, o leite não havia emulsificado totalmente, resultando em um sabor agudo de creme de leite, ou talvez tenham esquecido do vinagre e vinho que permitem uma emulsificação mais agradável.

O terceiro prato trata-se das brochettes de peixe branco com frutas, outra vez uma pena, o peixe estava salgado, e aparentemente as frutas se desprenderam do espeto durante o cozimento, resultando na falha da mistura de sabores, o abacaxi é interessante assado com peixes pois produz a citricidade comumente relacionada ao peixe, mas para tanto precisaria estar em contato com o peixe… A manga adicionaria o doce semelhante aos mango chutneys, entretanto a manga madura aquecida não fica no espeto, obviamente, e ela precisa ser madura para contribuir com algum sabor, o molho de curry realmente estava bom, não muito carregado no curry, nem fraco demais, um ponto interessante ao se misturar curry com mangas e abacaxis. Uma pena a execução ter falhado.

Algumas notas, o arroz feito somente com alho é muito bom, e as batatinhas francesas que acompanham TODOS os pratos são dignas. Apesar que eu nunca me dou bem com tais frituras.

Enfim, espero retornar a casa para poder visitar outras técnicas e ingredientes para realmente avaliar melhor, mas por esta visita fica a completa desilusão quanto às expectativas.

Lê díner.

Tuesday, February 9th, 2010

É fácil fazer comida simples!

A frugalidade gourmand é diferente. Apesar da admiração por uma complexidade  inerente às reduções e intercâmbios de sabores, aromas e texturas dos acepipes contemporâneos, a genialidade surge na simplicidade perceptível, muito fala-se da originalidade dos contrastes, mas até onde ser original requer absoluta irreverência e quebra de paradigmas?

O problema fundamental é a dificuldade em ser simples! Contraditório? Não exatamente! Ser simples requer critérios muito bem elaborados e uma ativa perseguição pela qualidade, ou seja, é sinônimo de boa cozinha! O que não deve ser confundido com cozinha fácil, aquela que em minutos transforma restos de pães e tomates em uma bruscheta fantástica sem qualquer elucubração.

Há um paradigma fundamental na cozinha mundial, a progressão convencional das teorias e do próprio entendimento do alimento reduziu antigos clássicos como beef bourguinon, coq au vin ou nossa buchada à posição de culinária “menos relevante”, enquanto a “moda” sacia-se na gastronomia molecular, mas esse é um paradigma amparado na própria etimologia do termo “culinária”, afinal na acepcão da palavra: é o estudo das técnicas de manipulação do alimento “até modificar seu sabor, consistência, aparência e composição química”.

“A man who was fond of wine was offered some grapes at dessert after dinner. ‘Much obliged,’ said he, pushing the plate aside, ‘I am not accustomed to take my wine in pills.’”

2010 pode ser o ano da “confort food” o moderninho “almoço executivo” torna-se uma necessidade, precisa ser rápido, mas a exigência é maior, precisa ser nutritivo, mas bem executado. Afinal quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de perder 2horas em um almoço fenomenal de espumas sabor foie grás? Grandes chefs perceberam que fazer comida confortável na hora do almoço é uma boa idéia e as pessoas querem comer bem, só não podem perder todo o começo da tarde para isso!

O almoço executivo padrão é o “remake” do saudoso PF (Prato Feito) dos trabalhadores de outrora, revestidos de um caráter gastronômico interessante, devem ser rápidos na execução e genuinamente cativantes ou seja simples! Este tipo de cozinha é uma resposta estritamente mercadológica. Por isso muito me impressiona a qualidade que algumas casas atribuíram a sua execução, um longo caminho desde o velho bife acebolado!

Lê Díner foi escolhido como caso típico, um restaurante já consagrado por sua conteporaneidade, executando peripécias gastronômicas, resolveu partir para a agilidade do almoço, as pessoas modernas talvez disponham de 30minutos à 1hora para almoçarem e buscam qualidade nesse tempo! Os francos adeptos da slow food se descabelam com o que representa esse tempo de execução e o Lê Díner é slow por excelência, um de seus salões chama-se espaço slow food (para terem uma ideia)!

Cabe uma pequena nota quanto ao slow food, o problema não é a velocidade de execução do prato, como muitos pensam, mas na padronização dos alimentos de maneira a inibir a cultura gastronomica regional, slow food é, portanto, a aplicação da ecogastronomia. Agora tentar executar um prato rápido sem alguma padronização é um desafio!

Sendo assim, 3 escolhas de carnes e 3 acompanhamentos formam as “opções” do almoço do Lê Díner, acredito que a chef Thais tenha buscado um pé nos clássicos pratos feitos na escolha das guarnições, o arroz e feijão são a base formal do almoço brasileiro, feijão muito bem cozido em caldo grosso e sem interdições regionalistas, afinal nenhum feijão é igual ao de casa com aquele ingrediente diferente (não, não é amor que tempera os melhores feijões), melhor não brigar com a mãe de ninguém e deixar o prato só no sal. Gostei.

Impossível ser mais simples que isso! Muito me agradou o efeito, o problema foi conseguir misturar um fillet de pescada amarela maravilhoso na manteiga de ervas com um feijão, farinha de ovos e arroz… Acho que peixe poderia ser acompanhado de algo diferente… Mas para a carne e para o frango acho que seria perfeito.