Mercado: Sabores do mundo

January 23rd, 2010

Parece que andei pulando algumas visitas, faltam comentários do Lê Dìner e Riory, mas acredito que meus amigos farão estes comentários assim que puderem.

Estou aqui para traçar um comentário (pequeno desta vez) acerca do mercado. Primeiro fato apreciado, o cardápio é MUITO interessante, gosto de ler historinhas, apesar de detestar que me contem pessoalmente… Pode me chamar de autista, mas não tenho interesse em tratativas humanas, sinto-me melhor com o papel.

Outro fato a destacar são os suflês, ofício do chef de cozinha da casa (sua especialidade de formação), entretanto eu fico com os pequenos suflês simples, os servidos como entrada, e não recomendo o prato principal, um suflê maior, pior apresentado e quase indigno de comentários.

Não recomendo os clássicos, prefira as peças mais imaginativas da casa, com toques de regionalidade, carneiro, carne de sol… essas coisas realmente é que fazem valer a pena, para quem quer ser meio esnobe (como eu acabei sendo), melhor procurar outra casa…

Recomendo a mesa redonda, dá um espírito de távola redonda e todos iguais, meio lúdico quase… Ah, a paçoca é tiro certo para gostar! O carpaccio de tilápia é admirável, nunca havia imaginado em tratar peixe de água doce para comer cru… Coisas da vida sem imaginação.

O que mais… Acho que só. Enfim, vale a visita, mas não é o melhor de fortaleza, a revelação do chef pode ficar por algumas misturas interessantes e uns poucos detalhes relevantes da casa, mas não vale o titulo de melhor, do pouco que conheço na cidade existem outros chefs que preparam coisas com melhor características, cada um na sua praia.

Colher de pau

January 12th, 2010

Melhor restaurante regional segundo a revista veja-fortaleza, será mesmo?

A visita à casa começa com uma pequena viagem cultural pelo conceito de regionalidade, o ceará é reconhecido como terra dos peixes e frutos do mar. No colher de pau as raízes estão fincadas no mar, na comida “simples”, não adianta procurar reduções de vinhos, modernismos com cajus e cachaças… O colher de pau é estritamente mundano, fillet com fritas, salada de alface, tomate, cebola e pimentão, peixadas, camarões… Tudo que você encontra ordinariamente espalhado no estado cearense, a diferença é a maneira de fazer as coisas!

O colher de pau envereda por um caminho interessante de regionalismo, não reinventa nada, apenas escolhe bem o que fazer, 18 anos atrás a casa preparava basicamente os mesmos quitutes, coisas simples que o cearense encontra em todo restaurante simples da cidade, da carne de sol na manteiga da terra (ou de garrafa como chamam por aí) à peixada da casa. A diferença de 18 anos é que os ingredientes são melhores hoje, a carne de sol não vem uma semana cheia de nervos e gordura e na outra fresca, macia e suculenta, hoje a casa tem um padrão de qualidade que merece ser zelado.

O gourmand mais requintado torce o nariz na primeira passagem de vistas pelo cardápio, afinal nada se destaca, nada é “novo”! O erro fundamental dos críticos culinários é acreditar que tudo precisa ser reinventado a todo momento para merecer destaque, comer uma carne de sol refogada na chapa com manteiga da terra é ridículo para muitos “críticos” de plantão que preferem um perdiz ao molho de uvas… Mas coloque uma paçoca de farofa de carne de caju e todos se encantam… hipócritas.

Realmente eu tenho dificuldades em aceitar as escolhas da veja-fortaleza, os critérios de escolha são fracos no meu entendimento, mas o colher de pau é um dos acertos, exatamente pelo mesmo motivo que enfraquece todas as demais escolhas, ninguém melhor que um artista local, um jornalista ou um empresário da terra para escolher o que é mais regional, pena que o mesmo não valha para setores onde o requinte suplanta a cozinha.

O que torna o colher de pau o melhor regional é o critério de regionalidade, tal qual o regionalismo literário de José de Alencar e Franklin Távora enchiam de luzes o nordeste brasileiro (e o Ceará), o regionalismo gastronômico, na minha opinião, não deve ser confundido com a redescoberta gastronômica, o regionalismo é histórico, amparado na cultura existente e fundamentado no que é a vida na região de estudo, a redescoberta é a acepção contemporânea dada a história culinarista, diz muito mais respeito à novos usos de ingredientes, técnicas e receitas clássicas.

Por isso que ser regionalista é dual, ou não é que a culinária inventiva de Helena Rizzo (nosso amigo Pinto esteve por lá para conferir) tenha toques de Pará, com farofa de castanhas que acompanham as esferas de feijoada, ou toques de Bahia no bobó de camarão incrementado com shiitake e chocolate, assim como não pode se dizer que o famosissimo D.O.M. não seja repleto de regionalismos? (sendo gastronomia brasileira o próprio sobrenome da casa). O problema é que as pessoas esquecem do que esperar dos restaurantes, o colher de pau foi uma grata lembrança de que gastronomia pode ser simples, sem invenções exageradas, e ainda assim mais do que satisfatória.

Enfim, com exceção de um atendimento fraco (despreparado como são quase todos), a casa é uma das melhores opções para se entender um pouco da culinária do Ceará, do mar ao sertão tem um pedacinho do que ser provado por ali e o melhor, sem necessidade de ser um absurdo gastronômico, basta ser bem feito.

Churrasco.

January 7th, 2010

Falar de carnes parece interessante, um mínimo de interesse em gastronomia nos leva às carnes, dos bovinos às caças… Carne e a própria história da culinária se confundem, dizem que o mínimo necessário a um bom chef é fritar um ovo, mas na verdade é muito mais crucial conhecer as suas carnes.

Jean Billat-Savarin proferiu: “Depois de descoberto o fogo, o instinto de melhorar obrigou o homem a levar comida ao fogo, primeiro para secar, e depois para cozinhar.“. Melhorar é uma busca infinita da própria índole humana e uma meta inextinguível do cozinheiro, é com essa determinação que o “cozinhar” tornou-se uma arte e não mera necessidade, uma grande diferença desde os primordiais usos do fogo.

Um bom cozinheiro tem uma regra de ouro, a qualidade de seus ingredientes, carnes detém características que devem ser buscadas, não sendo possível destrinchar todas elas aqui, tentarei seguir apenas por aquelas mais obscuras. O frescor das carnes bovinas é mensurado por sua cor, quanto mais vermelho melhor, entretanto cuidado com os corantes… A cor de uma boa carne é vermelho telha, não vermelho vivo! Outro teste é a consistência, a carne crua deve ser firme ao toque, entretanto elástica, quando pressionada deve retornar a sua forma original rapidamente. Visualmente a carne marmoreada é o maior desejo, os pontos brancos que as boas peças apresentam são um sinal da presença de fibras de colágeno (não gorduras), estas fibras quando aquecidas derretem e promovém uma umidade desejada à peça, diferente da gordura em capas, que escorre e faz bastante mal.

Mas esses critérios dizem respeito apenas a algumas peças específicas, como as de churrasco, mas basicamente a regra vale para quase todas as partes… Uma coisa que pouca gente sabe, mas todos deveriam saber, é que a carne “fresca” não é aquela do animal recém morto! Uma boa peça deve descansar por 24horas pelo menos, isso mesmo, ela deve ser refrigerada cuidadosamente por um ou mais dias para que possa descansar e estar apta ao consumo ideal. Isso se deve a contínua quebra de glicose nas células, liberando energia nas fibras (ou seja, ela ainda está viva, por assim se dizer) produzindo ácido lático (aquele mesmo ácido que produzimos quando realizamos esforços físicos moderados ou pesados), este ácido lático se acumula no primeiro dia, até um ponto crítico de pH em torno de 5, enquanto esse processo de glicólise ocorre temos o conhecido (ou não) rigor mortis, estado em que as fibras se contraem e perdem a capacidade de reter água, então a carne “pinga” durante esse período, por isso ser importante sua refrigeração para limitar esta desidratação, depois de uns dias o rigor mortis terá agido e boa parte das reservas de glicose terão sido consumidas, restando muito colágeno e elastin, que são profundamente desejados no cozimento.

A maturação da carne é o primeiro estado de putrefação, mas não se alarmem, é desejável comer uma carne que já tenha iniciado sua decomposição, vejam só, quimicamente os compostos da carne decompõem-se em velocidades diferentes, o início do processo de putrefação começa a fazer a carne perder líquidos, algo indesejável, porém necessário para reduzir as tensões nas fibras, tornando-a mais tenra, o segredo está em usar a carne num estado de putrefação que ainda não tenha atingido as fibras de proteínas, assim ela terá água suficiente para ser suculenta e fibras de menos para não ser dura, é tudo uma questão de tempo.

Tudo isso serve para a maioria das carnes, mas não todas, peixes devem ser frescos, se possível só matar na hora de cozinhar e minutos antes de servir, melhor. Aves são menos suscetíveis a estas questões… No fim vale muito mais para bovinos que demais fontes de carnes.

Dito isso, o cardápio do fim de semana será um pequeno churrasco, vamos ver se a teoria ajuda na prática.

Vegetais grelhados: Abóbora, Abobrinha, Berinjela, Alho, Tomate, Cebola e Batata, além de cogumelos.

Mozzarella marinada com pão crocante, bacon e azeitonas ao molho de limão.

Papilotes de batatas com ervas.

Salada de rabanetes, vagens, pepino, grão de bico, Cogumelos, frango, Tomate, alface e vinagrete.

Carnes: Picanha, Costelas ao vinho e mel, coxinhas da asa marinadas na pimenta…

Até mais. Tour Gourmand convidado.

“Cooking is one of the oldest arts and one which has rendered us the most important service in civic life.”
Jean-Anthelme Brillat-Savarin

Comparativos.

December 19th, 2009

A veja fortaleza 2009/2010 escolheu os melhores da cidade, em busca de referências visitamos alguns, a intenção é descobrir o que os tornam relevantes para artistas, empresários e pessoas formadoras de opinião na capital cearense.

A lista inicial constituiu-se da melhor pizza – Vignoli, a melhor massa – Cantina di Napoli e o bom e barato – Regina Diógenes.

Vignoli eu posso concordar como a melhor pizza, realmente a massa é do estilo que me agrada, entretanto eu costumo ser minoria neste assunto. A maioria das pessoas ignora o início da pizza, que remonta mais de 6000 anos, os fenícios chamavam-na piscea, é na direção histórica que caminha a pizza Vignoli, tradicionalmente os discos de massa eram apenas farinha e água, sem óleos, fermentos ou demais condimentos, assados em fornos tradicionalmente ovalados de barro, onde os discos assavam nas paredes diretamente, entretanto a moderna e tradicional pizza italiana remonta a Nápoles do primeiro milênio. O cardápio deixa bem claro que a pizza da casa vignoli não leva óleos e fermentos, ou seja, foge do padrão esperado de pizza, talvez por isso haja um contra senso quanto a “tradição”. Dos napolitanos ficam os “recheios” e o molho de tomate caseiro que “tempera” cada disco.

A vignoli, ao desafiar a “tradição” napolitana oferece uma pizza fora da “Verace Pizza Napolitana”, e talvez por isso possa encontrar profundos críticos. Entretanto uma boa escolha de ingredientes, um molho caseiro bastante simples e bem executado garantem boas pizzas, tradicional ou não. Talvez aqueles mais fiéis napolitanos devam procurar outras casas mais italianas onde as massas são mais compactas e levam os tradicionais femento e leveduras da “Verace Pizza Napolitana”.

O Cantina di Napoli mantém-se fiel ao nome que carrega, ou fomos nós quem escolhemos pela tradição? ;)

Tradicionalmente Nápoles é a cidade refúgio da pizza, em especial a Margherita tem origens na região napolitana e é tão fundamental que uma lei regula a maneira com que deve ser confeccionada, Nápoles já foi grega, espanhola e francesa, então não é de se espantar que a cozinha seja de importância fundamental à tradição regional, ao ponto de uma das mais importantes peças folclóricas retratar Pulcinella comendo um prato de spaghetti, provavelmente o próprio spaghetti alla pulcinella, uma das especialidades regionais.

Outros pontos fortes da culinária napolitana são a parmigiana di melanzane e o clássico Ragú, ambos fizeram parte do nosso pedido, complementado por outro spaghetti com berinjelas, uma bruscheta com brie e agrião e uma visita mais contemporânea de pato ao molho de amora (ou seriam framboesas? Esqueço agora…).

Escolhas muito boas, do tradicional ao moderno, e todos muito bem executados, fica especialmente ressaltado o pato, apesar de que a pretensa complexidade do prato não se confirma em sua execução, e a grata surpresa na parmigiana a melanzane, que engana aos mais despretensiosos, as boas parmigianas exigem equilíbrio de queijos, óleos e molhos (eu confesso que nunca consegui), uma história interessante do nome, a parmigiana não é referente à região de parma como podem pensar, mas ao termo parmiciana, que eram as tábuas superpostas que formavam tampões de madeira, cuja superposição da madeira lembra a maneira com que se dispunham os ingredientes do prato.

Finalmente as nossas visitas nos levaram ao Regina Diógenes, em seu novo endereço no Cocó, para um bom e barato realmente não tenho do que reclamar, boa oferta de saladas e sobremesas, mas poucas opções de pratos quentes principais muito me agrada o fato das porções serem relativamente comedidas, odeio a ideia de pratos preparados aos montes e mantidos quentes naqueles vapores de água suja o dia inteiro, gosto de ao menos ser enganado a pensar que a comida está na panela e é reposta o tempo inteiro nos malditos “rechauds”.

A comida é o que se pode esperar pelo preço, agradável, realmente bom, para um dia a dia é realmente uma das melhores opções da cidade, em termos gourmands talvez falte algum detalhe, o limone chega mais perto da inventividade culinarista. Enfim, merece o bom e barato da cidade com algum louvor.

Delices de france

December 15th, 2009

Em complemento ao senhor Roberto.

O ambiente é bastante desconfortável, o atendimento é impessoal, mas até combina com o lugar. O quadro negro explicado item a item ajuda e é melhora bastante o sentimento total de bom atendimento.

Da comida, a Cioba é o prato a se considerar, a tilápia não é uma má opção… O carneiro é bastante interessante e a carne de sol predomina pelos acompanhamentos mais atrativos. No fim, é uma cozinha boa, vale a pena conhecer, pelo custo benefício é uma ótima opção, mas pelo total da casa não figura dentre os melhores…

Não me entendam mal, eu voltaria a casa, certamente voltarei, mas não com a expectativa de encontrar o melhor da culinária de Fortaleza, diria digna, até com momentos de grandiosidade, mas nada extraordinário. Sobressaem os preços excelentes e a qualidade dos ingredientes, realmente bastante caprichados, provenientes da fazenda do proprietário, contribuem para a percepção geral positiva.

A comida em si não pretende ser “moderna”  cozinha francesa, é comida mais simples, porém com aquele jeito francês de cozinhar. Talvez eu seja o problema, a cozinha francesa nunca foi nem nunca será meu ponto forte, e a culinária francesa mais rústica talvez fique um pouco fora da minha zona de conforto… Enfim, recomendo que visitem, provem e concluam por conta própria.